Oiço um comboio a passar, a espera é desconcertante e horrivelmente inquieta. De repente deixo de ouvir o comboio e algo, muito ao longe, parece aproximar-se. Fica escuro. Faz-se luz: "O que será?". Fica escuro, novamente. A luz fere-me os olhos. Fica escuro. Estou morto! Os flashs sucedem-se e o meu corpo permanece colado ao chão. Não há sinal de vida! Segundos depois a correria começa, desloco-me no escuro e no vazio sem saber que caminho seguir, tento fazer a simbiose perfeita entre o meu tacto e os meus passos. Parece resultar. Quando a luz volta já estou seguro e longe da vista de todos. O calor começa a dominar o meu corpo e tento combatê-lo com um leque improvisado. Os segundos passam a correr e não tarda estou novamente exposto aos olhares de todos. Dou um passo e o meu pé fica iluminado, a luz é tão intensa que não consigo ver os contornos definidos de nada, nem de ninguém. As minha recordações fluem-me pelas veias e consigo tocar-lhes, quero ver-me livre delas, mas não consigo! Tento avançar, mas há algo que me impede. Sou puxado fortemente contra uma parede. Os meus pés e as minhas mão estão presas, não me consigo soltar! A viagem faz-se, por mim passam viajantes de todos os tipos, desde loucos procurando a fragrância perfeita, a hospedeiras que voam num céu perdido... A vontade de me soltar é tão grande que o sofrimento se transforma em força. Estou livre. Enfrento tudo e todos, sem receios. A vida é cruel e prega-me uma rasteira. Estou morto, novamente! O meu corpo eleva-se e novamente e consigo ouvir uma enorme barafunda e uma constante sucessão de passos. Estou de novo a salvo, mas desta vez mais cansado. Preparo-me para o que se segue e respiro fundo. O espelho espera-me e a futura ausência também. A loucura instala-se e a viagem começa, a euforia passa, o a desilusão vem, o desespero apodera-se de mim, mas a solução surge. Pessoas, rodeado de pessoas é que estou completo.
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